Matéria Refugiados, com a entrevista do pesquisador Gustavo Fernandes
Após
inúmeros acontecimentos políticos e sociais ao redor do mundo no ano de 2016, o
estopim de migrações que decorreram destes fatos cresceu de maneira descomunal,
mas como é a situação desses refugiados? Em que condições e de que forma essas
pessoas que buscam apenas um pouco de tranquilidade e sossego conseguem ou não
se estabelecer em países como o Brasil por exemplo? O número de refugiados
reconhecidos no país aumentou 12% no país, em 2016, chegando a 9.552 pessoas de
82 nacionalidades no total, os dados constatados entre 2010 e 2016 mostram que
o Brasil por mais que seja uma “arriscada” porta de entrada, ainda sim é muito
visada como um local de abrigo e uma possível chance a essas pessoas.
Esse
pensamento pode não ser comum para todos os brasileiros, mas inúmeras pessoas
trabalham diariamente lidando com casos de dor, angústia e principalmente
saudade, esse é o trabalho que quem ajuda e acolhe os refugiados aqui no
Brasil, quase sempre sem apoio nenhum por parte governamental, instituições e
organizações ajudam pessoas que tiveram suas vidas arrancadas de seu lar a
tentarem se readaptar na sociedade, a conviver em harmonia e terem seus
direitos como cidadãos garantidos.
(Haitianos
em busca de emprego na cidade de São Paulo, muitos sofrem com o racismo e
descriminação para conseguirem uma chance de trabalhar na capital.)
No Brasil, de
acordo com os dados do CONARE, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em
2016 houve aumento de 12% no número total de refugiados reconhecidos no país. Até
o final de 2016, o Brasil reconheceu um total de 9.552 refugiados de 82
nacionalidades como sírios, haitianos, palestinos, angolanos, etc.
Os números
mostram que o país teve um aumento considerável no aumento de pedidos de
refúgio, grande parte desses pedidos foram causados por inúmeros conflitos
sociais e políticos em países do oriente médio e áfrica, muitos deles tiveram
mudanças em seus regimes políticos como quedas de líderes políticos ou golpes
militares, grande parte da população desses países opta por fugir de sua pátria
ao conviver com o terror das guerras civis e os traumas de perdas geradas com a
violência dos conflitos.
Segundo o
Professor da FAM(formado na USP Sertãozinho e colaborador da ONG bem vindo
amigo refugiado), o especialista na área Gustavo Fernandes, “na maioria dos
casos o refugiado vai para onde ele consegue ir, tem gente que vem para o
Brasil pois se planeja para, tem algum contato ou alguma comunidade que o
acolhe, mas na maioria dos casos ele vai para onde ele conseguir ir, pois ele
está em uma situação de insegurança total, se ele fica, pode colocar em risco a
si e sua família, a pessoa vem para o Brasil não com o pensamento de ficar
aqui, mas para conseguir talvez a Europa ou a América do norte.
Quando
questionado referente a falta de aceitação dos refugiados pela população pela
falta de informação dada a população sobre eles, o próprio especialista cita
como fundamental a conscientização da população:
“A falta de
informação e de conhecimento, gera o preconceito, gera a descriminação e com
isso a prática em algumas vezes da situação de violência, o refugiado é uma
pessoa que está em uma condição de que ela não pode garantir sua própria
segurança, ela pode ser refugiada tanto por uma catástrofe natural, quanto por
decorrência de perseguição política ou ética, então essa pessoa vem por uma
necessidade, temos que entender isso, da mesma forma o imigrante, qualquer
pessoa que procure um lugar, seja pra trabalho ou em busca de uma vida melhor,
isso não é nenhum demérito, pois a nossa própria vida é uma vida de imigração.”
O professor
cita sua saída de sertãozinho como um exemplo, quando ainda era jovem aos 19 e
havia se formado na USP da cidade interiorana de São Paulo, o mesmo veio para
capital em busca de uma vida melhor:
“eu vim
buscar minha vida em outro lugar, isso não significa que eu não vá contribuir
para esse lugar, eu acho que existem duas comunicações que são falhas do ponto
de vista governamental, a primeira é a questão de você ver o refugiado como um
coitado, alguém que veio de um “fim de mundo qualquer” e que a pessoa precisa
ser amparada, a outra é que a pessoa viria para supostamente roubar o emprego
do brasileiro ou tentar disseminar uma cultura diferente em nosso país, na
realidade o que precisa ser disseminado é a cultura de que essa pessoa não
busca prejudicar ninguém e sim se desenvolver, todo imigrante paga impostos
também e tem uma vida social como qualquer um de nós.”
Quando
questionado se as leis de apoio aos refugiados realmente os acolhem e amparam a
resposta é negativa sobre o assunto:
“Não, embora
você tenha as leis dos tratados que garantam essas prerrogativas, na prática
realmente o refugiado tem uma situação de total vulnerabilidade, com relação a
garantia de direitos, pois na maioria dos casos você tem a própria língua como
barreira, a pessoa não tem como conseguir os direitos dela porque ela não
consegue se comunicar com relação a busca desses direitos, e o estado também
não se mostra preocupado em garantir que ele possa obter esses direitos de
forma correta.”
Quando o
especialista foi questionado sobre a condição psicológica e emocional dos
refugiados e como eles lidam com os traumas, ele percebe dois aspectos mais
latentes da situação: “Primeiro nos temos os casos pessoais, tem traumas que
são muito grandes, principalmente quem sofre muito com isso são os mais velhos
e as crianças, pois os traumas nesses casos ficam mais aparentes.” O mesmo
completa dizendo que “Ele tem a vida dele de certa forma cortada, então essa
ruptura complica a adaptação dele aqui, e ao mesmo tempo ele conseguir resolver
seus problemas que ficaram no país de origem, então ele fica dividido, pois ao
mesmo tempo que tenta se adaptar, ele acaba preso a vida passada, ou a parentes
que ficaram lá, ou até mesmo preso aos traumas que carrega.”
Sobre a
questão do aumento visível na quantidade de refugiados que entraram no país nos
últimos tempos, Gustavo indica algumas das possíveis causas dessa migração em
massa:
“ Existem
alguns fatores, primeiro que você teve excesso de instabilidade maior tanto no
oriente médio quanto no norte da África nos últimos anos, alguns países que
passaram por grandes mudanças de regime ou guerra civíl, e na maioria desses
casos você não consegue restabelecer um governo novo, por exemplo a Líbia, que
é um país que tinha um regime de 40 anos de Muammar Gaddafi, e após a queda do
regime, os grupos que se mantiveram, não conseguiram estabelecer um esquema de
governo centralizado e com isso o país se tornou uma porta de tráfico humano.”
O especialista ainda cita a Síria, que vem recentemente passando por inúmeros
conflitos políticos:
“A ação do
ISIS na região causa uma perseguição muito grande da população civil, tanto
pela parte religiosa quanto política, sistematicamente causando mortes e
perseguição a população, a pessoa s sentindo totalmente vulnerável nesse caso
busca alguma saída para poder manter sua sobrevivência.”
Outro fator
complexo citado pelo professor, é a questão econômica desses países:
“ A
concentração de renda maior nesses países, gera uma diminuição na expectativa
de emprego e até renda nesses lugares, e com isso as pessoas são postas em uma
situação de vulnerabilidade maior.”
Para o
especialista, é necessária uma mudança na visão da população e governo sobre
esses refugiados para que algo mude para melhor:
“Procurar
soluções burocráticas e técnicas mais eficientes, para fazer a vida daquela
pessoa, ter um pouco mais de sentido, ter uma facilidade ao procurar um
emprego, ou se comunicar melhor, e a capacidade também de dar um maior amparo
as instituições de apoio, pois essas instituições sobrevivem lutando com suas
próprias forças, a criação de redes de cooperação poderiam facilitar a
capacidade de atender e ajudar o imigrante ou o refugiado
O
especialista também cita a história brasileira, que mostra situações de refúgio
desde o início da formação da população do país, como os imigrantes portugueses
entre outros que vieram para o país em tempos passados, como imigrantes
europeus, muitos deles refugiados, que ajudaram na formação do país.
O que fica
claro após a entrevista é que a situação dos refugiados no Brasil não é somente
política, e sim social e cultural, o país primeiro precisa aceitar a situação
do refugiado, entender que como nós, ele é apenas mais um cidadão que tem seus
direitos e deveres perante a sociedade, que merece o respeito e dignidade igual
qualquer um de nós, e que não está aqui por opção própria, e sim porque busca
uma chance de poder viver normalmente, como cada um de nós.
Para ver a entrevista completa:
http://fampirefugiados.blogspot.com.br/2017/10/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html
Entrevistador: Victor Miceli.
Texto: João Vitor, Victor Miceli.
Edição: Henrique Pierri, Anito Steinbach, Darques Junior
Texto: João Vitor, Victor Miceli.
Edição: Henrique Pierri, Anito Steinbach, Darques Junior

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