1 - Perfil - Luiza Pereira



 " A moça branca, que ajuda negros, o mundo pode e deve mudar"

- As pessoas acham estranho ter um brasileira, loira, em uma ONG que só tem negros.


- Então eu sou formada em Relações Internacionais, na federal do ABC, e mesmo fazendo em uma federal que tem um ensino mais democrático, a migração, a África, a Ásia, eles nunca são estudados da forma que deveriam ser, principalmente no meu curso que é meio elitizado. Você aprende o que os Estado Unidos querem que você aprenda e eu gostava dos assuntos que ninguém estudava e fui pesquisar. Eu entrei em 2012, foi bem na época que começou o maior fluxo de imigrantes e refugiados e comecei a estudar isso, mas nunca me aprofundei. Quando sai em 2016, eu fiz um blog sobre imigração em São Paulo e comecei a conhecer muitas organizações. A “África do Coração” foi na Câmara de Vereadores fazer uma palestra sobre mulheres, eu conheci, amei e vim até aqui e falei com o Jean (presidente), que queria trabalhar e entrei.


- Eu tenho sim um receio, porque sou brasileira, branca, loira. Então eu procuro ficar mais nos bastidores e tal, mas essa temática sempre me fascinou.


- Quando eu comecei a estudar isso, na verdade eu estudada imigração. O meu TCC foi sobre "mutilação dos órgãos genitais femininos na África" e as pessoas sempre ficaram com pé atrás de tudo o que eu queria estudar. A minha mãe sempre me disse: "os filhos das minhas amigas querem ir para os EUA, Europa e a minha filha sempre quer ir para os lugares mais estranhos e eu não consigo explicar". Assim eles abraçaram também. Como eu gostava, e eu sempre conversei muito com a minha família, então desmistifiquei muitas coisas também. Eles foram à Copa, amaram e eu tento fazer o que a ONG tem como missão, tirar essa xenofobia iminente assim.


- Xenofobia ou Racismo, depende se vier um refugiado ou imigrante africano, pois os dois estereótipos andam juntos. Talvez haja mais racismo que xenofobia, não sei porquê, não consigo separar os dois. No caso dos árabes existe o negocio da religião, do homem-bomba, tem essa ideia também. Eu acredito que não podemos diferenciar e separar uma coisa da outra.


- A mídia nunca nos apoiou. O que me surpreendeu muito nessa Copa foi a quantidade de mídia que havia: Globo, Band, Record etc. Nunca houve isso, mas por um lado é bom. Eu acredito que como está crescendo não dá mais para ignorar


- Quando eu chamei meu país para ver a Copa, eles ficaram meio receosos, mas quando chegaram em casa ele ficaram tão animados, tão felizes; o brasileiro tem essa ideia de que só ele sabe jogar bola, e ver outras nacionalidades jogando até melhor os deixa meio afrontado.



ONG "África do Coração"


"A nossa missão aqui é atender os imigrantes e refugiados, não só os africanos. Na nossa diretoria temos alguns árabes também, como o Abdou, que é vice-presidente"



"A gente tenta resgatar os imigrantes da vulnerabilidade social, vulnerabilidade política, econômica. Todas as dificuldades que eles encontram aqui, nós tentamos suprimir e dar assistência de alguma forma"



Outra frente nossa é a divulgação dos refugiados, tentar incorporar esse tema na população paulistana e claro a brasileira, para que desmistifique e acabe com esses preconceitos, e alguma xenofobia que tem, principalmente com imigrantes africanos, negros, enfim. “Tem todo o racismo envolvido também, essas são as duas frentes principais”



"É ser reconhecida na sociedade e no governo, como uma central de ajuda e de informação da temática dos refugiados, é o que eu acredito que ajuda nessa nossa proposta é que a ONG é formada por refugiados, imigrantes. A maioria dos ajudantes é composta por refugiados, os brasileiros estão aqui só para dar uma ajudinha."



"Em setembro de 2013 eram três amigos, dois do Congo e uma de Camarões que moravam aqui na missão de paz, uma casa de recolhidos. Eles sentiam o que todos os imigrantes sente. Você chega aqui, a informação das pessoas não é muito grande, a visão das pessoas sobre eles nem sempre é boa, e aí você se sente excluído da sociedade, mas digamos que o Brasil é um dos países mais "acolhedores", e aí eles resolveram que havia sim uma forma de mudar essa visão dos brasileiros sobre os refugiados. Tenta né."


 "Acontece porque o continente é confundido com um país e ele não é. Mesmo eles tendo muito países, eles têm um valor de fraternidade entre eles, aqui mais ou menos nós temos 20 nacionalidades diferentes dentro da ONG. E dá para perceber que mesmo com alguns conflitos culturais, religiosos, o sentimento de fraternidade é muito grande. Então aí vem o coração, justamente o Brasil que sempre teve muitos negros, essa conexão entre o Brasil e a África, ele sentiam que era muito forte, então como havia esse sentimento, África do Coração, no Brasil"


"A gente é dividido em Departamento Administrativo, Jurídico e Financeiro e Intercultura. No Administrativo fica a comunicação e relações públicas aonde eu me encontro. Jurídico cuida dos nossos documentos, Financeiro das nossas finanças e o Intercultura são os nossos Projetos, como a Copa dos Refugiados"



"Às vezes os imigrantes e refugiados, chegam aqui sem trabalho, sem casa, sem saber aonde ir, sem ter o que comer e etc. O que nós fazemos são doações de roupas e alimentos, encaminhamento para as casas de acolhimento em São Paulo. Devem ser por volta de uma sete ou oito casas. A gente ajuda as pessoas com currículo. A gente tem um grupo de empresas no WhatsApp e ajuda com a documentação, tirar o passaporte, CPF, encaminhar o pedido de refúgio. A gente também faz festa para a integração da população brasileira com os refugiados. E para os imigrantes também, a Copa dos Refugiados é um dos exemplos de integração. Nós também levamos a temática refugiados externamente"



"Bem nós temos o Buton, onde nós levamos refugiados para escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio e faculdades também pública e privada, para falar mais sobre o tema Refugiados, onde há debates, palestras etc. Nós temos também a Malai School, nossa escola de idiomas, o interessante é que sempre um professor imigrante ensina o seu idioma, ele ensina algumas danças, troca Interculturais da Região deles. As aulas acontecem na ONG "Ação Educativa". O nosso maior projeto é a Copa dos Refugiados. Ela foi idealizada em 2014 durante a Copa do Mundo; o Jean (presidente), pensou "Caramba, claro que estamos no Brasil, pensa muito em futebol, seria mais uma forma de aproximação". A primeira edição nem existia a ONG, aconteceu na Zona Leste para 600 pessoas e o vencedor foi a Nigéria. A segunda edição em 2015 foi dois dias de eventos, com a participação de 800 pessoas, o vencedor foi Camarões. A terceira edição já foi no SESC Itaquera, três dias de eventos e além da Copa dos Refugiados, nós temos também a Copa de Integração que acontece os jogos com mulheres e crianças também, além dos homens. Foi uma forma de democratizar o eventos, desta vez 1.300 pessoas, o vencedor foi o Congo, (O Jean ficou muito feliz.). Ficou muito, tanto que as pessoas acharam que ele deu uma mãozinha (risadas). A quarta edição foi 4 mil pessoas, foi gigante , nós não esperávamos, foi um trabalhão para fazer no Pacaembu, tivemos parcerias muitos grandes como: Netshoes, Sodexo, Prefeitura de São Paulo: a nossa abertura foi no Museu do Futebol, o Campeão foi a Nigéria ,então as coisas estão evoluindo. Nós também tivemos a Copa de Integração, desta vez com times mistos, e não representava os seus respectivos países, representava as casas de acolhidos de São Paulo. Então cada casa tinham seu time com homens e mulheres, as regras também são diferentes, o gol feito por mulheres valia mais pontos, caso houvesse briga perdia um pontos. E esse ano também teve a Copa em Porto Alegre, foi no dia do Aniversário da cidade, esperamos que no ano que vem também temos no Rio de Janeiro, Porto Alegre de novo. “Tem uma rolando em Campinas, tá crescendo o negócio”.


Texto: Victor Miceli
Entrevistador: Darques Junior
Fonte: Henrique Pierri

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